Pará promove consulta com quilombolas para definir Plano de Desenvolvimento

IDESP promove ações para definir Plano de Desenvolvimento.
Realizado com base dos parâmetros da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o levantamento é o primeiro do tipo realizado no país e segue até sábado, 31.


Moradores da Comunidade Remanescente do Quilombo de Cachoeira Porteira, em Oriximiná, no oeste paraense, participam, desde a última sexta-feira, 23, de uma consulta prévia, livre e informada, promovida pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp), para definir um Plano de Desenvolvimento, com ações prioritárias que serão executadas pelo governo estadual, como forma garantir o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento da identidade da comunidade. Realizado com base dos parâmetros da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o levantamento é o primeiro do tipo realizado no país e segue até sábado, 31.

O processo definido pelos próprios moradores em reunião com representantes do Idesp, da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu) e do Ministério Público Federal garante a comunidade total participação e poder de decisão sobre as ações que serão definidas, em consonância com o decreto 767, de junho deste ano, em que o Governo do Estado formaliza sua intenção de realizar a consulta. “Esse é um processo que deverá entrar para a história e, mais do que isso, servir de modelo para outros estados brasileiros, porque garante a participação da comunidade durante todo o processo. Para nós, isso também passará a ser um padrão”, destacou o coordenador da consulta, Gustavo Silva.

A consulta teve início nos dias 23 e 24 de agosto, com reuniões de esclarecimento, em que foram fornecidas todas as informações relacionadas ao processo e ao Plano de Desenvolvimento, elaborado por técnicos do Idesp, a partir de discursões com a comunidade local e de um estudo técnico-científico de identificação do território da comunidade quilombola sobre a área. O estudo foi apresentado, em junho do ano passado, ao Ministério Público, que acompanha o processo devido à relação de vizinhança dos moradores da comunidade com populações indígenas, e por ser este o órgão responsável pela defesa dos direitos das populações tradicionais.

Propostas – Entre as propostas apresentadas pelo governo está a implantação do Ensino Médio na comunidade, já que apenas o Fundamental é ofertado na Escola Municipal Constantina Teodoro dos Santos. Atualmente, há 188 alunos matriculados, entre o Jardim I o nono ano. Durante a apresentação do plano, Manuella Porto, bolsista do projeto, detalhou aos moradores a estrutura física da escola, que seria aproveitada para acolher as aulas do Ensino Médio. O prédio dispõe de cinco salas de aula, salas de professores e de leitura, departamento administrativo, depósito para materiais didáticos e esportivos, copa com dispensa e banheiros.

Outro ponto defendido pelos técnicos é a reativação do posto de saúde, como forma de garantir o primeiro atendimento à comunidade. Para receber assistência médica, os moradores precisam se deslocar até o município-sede, Oriximiná, em um deslocamento que pode levar de 3 a 4 horas, feito por lancha. Devido à distância, na maioria das vezes o atendimento acaba sendo feito de forma improvisada na própria comunidade. Everaldo Almeida, técnico do Idesp, informou que a proposta é, além de aparelhar o posto de saúde, contratar agentes de enfermagem e garantir acompanhamento médico para a comunidade. Outros recursos para a capacitação e treinamento dos agentes, medicação e manutenção do posto também estão previstos.

As alternativas de renda na entressafra da castanha – principal fonte de renda das 90 famílias da comunidade – também têm destaque no plano. A atividade agrícola contribui para a economia de Oriximiná, responsável por 24% da produção estadual. O município é o terceiro maior produtor de castanha da Região Norte. Outras atividades, como a pesca, a roça e da produção de farinha também têm espaço, mas são voltadas em grande parte à subsistência da comunidade. Uma das alternativas apontadas pelo técnico Divino Hércules é fomentar o turismo de pesca na área, localizada às margens do rio Trombetas e próximo da confluência com o rio Mapuera. Ao todo, são 228 mil hectares propícios à atividade.

Processo – Até agora, duas reuniões já foram realizadas com a comunidade. “Grande parte das ideias iniciais apresentadas já estão dentro do que pensávamos. Fico feliz porque, de fato, o plano reflete nossas necessidades”, opinou. Após a apresentação do plano, o vice-presidente da associação de moradores da comunidade, Claucivaldo Santos, e o presidente da associação, Ivanildo Carmo, aproveitaram para convocar toda a comunidade para as discursões internas, que seguem até quarta-feira, 28. “A participação de cada um é importante. É nós que vamos decidirmos o futuro da nossa comunidade”, ressaltou Ivanildo. Nos dias 29 e 30 ocorrem as reuniões de negociação até a decisão final dos moradores, que será apresentada no dia 31.

Assim que chegou à localidade, a equipe Idesp percorreu as casas distribuindo material informativo aos moradores sobre o processo. Durante toda a consulta, a comunidade pode modificar ou rejeitar as propostas apresentadas nas primeiras reuniões. Até o final do processo, com o apoio da Fundação Curro Velho, também estão sendo ofertadas oficinas de corpo criativo e de ambientação de espaço, utilizando materiais nativos como forma de fortalecer a identidade cultural da comunidade. O Idesp também oferta um minicurso de informática básica para os moradores.

Fonte: Agência Pará

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